...Ou então os peidos verbais do comunicado emitido hoje pelo nosso Clube (na figura do seu Departamento de Comunicação), visando a especulação em torno das transferências de Rui Patrício e Fábio Coentrão, são inqualificáveis e absolutamente lamentáveis. O Benfica não é isto.
No Verão o circo chegou ao Benfica, como sempre chega, na forma de capas de jornais a anunciar todos os jogadores que o Departamento de Scouting queira comprar, tinha equacionado comprar mas já não iria comprar, ia comprar mas não sabia sequer que ia comprar. A experiência ensina-nos que qualquer jogador federado é um possível reforço do Glorioso, e a silly season de 2008 não foi diferente nesse aspecto. Surgiu a hipótese Pablito, percorreu-me um arrepio, mas procurei afastar a ideia, já que sairia provavelmente desiludido.
O mexerico desenvolveu-se, ganhou consistência, mas foi infindável, uma luta contra o tempo, contra os outros concorrentes, contra a história que nos dizia que jogadores como aquele não aceitariam vir para um Glorioso longe dos tempos áureos. Rumores, apalavramentos, acordos verbais, boatos, exigências, revezes de última hora. A impaciência tomava conta de mim e temi o pior. A dada altura, passou-me pela cabeça cometer um acto de desespero, entrar pela Travessa da Queimada adentro, agarrar o Serpa pelos colarinhos e enfiar-lhe goela abaixo todas as manchetes mentirosas e todas as ilusões que me andava a vender.
Até que surgiu a confirmação. Ainda assim, com cautela de quem já tinha visto tantos equívocos e tantas esperanças desfeitas, precavi-me: só acredito quando o vir com a nossa camisola. A sua saída do túnel de acesso ao relvado mostrou que era verdade, Pablito de encarnado, águia no peito, cachecol do Glorioso, um deus do futebol no meio dos mortais, vestido como se tivesse nascido benfiquista, como se fosse domingo de jogo na Luz.
Entre a sua chegada nesse dia e a sua partida ontem, muito, tanto, imenso, demasiado; meia década de futebol cósmico e de postura senhorial. Não recordarei a última vez que vi Pablito em campo, numa derrota imerecida pelo que fez no Benfica, lançado aos leões num jogo que, sem ritmo e com uma equipa animicamente destroçada, lhe era impossível resolver. E grande parte desta época, nesse ponto de vista, não existiu, não aconteceu, foi, à excepção de breves momentos brilhantes (que os houve), um desvario mental colectivo. Para mim, não foram os últimos passos desta caminhada a forma como Pablito se despediu, nem será, de maneira alguma, a memória que me ficará da sua passagem pelo Glorioso.
Vou antes cristalizar a experiência Pablito numa amálgama de todos os baqueios de incredulidade que durante cinco anos Pablito me causou, pelo que fez em campo e pelo que ia dizendo fora dele. Tenho recriado mentalmente uma maratona eterna de Pablito, que corre milhares de quilómetros enquanto conduz a bola e que começa no passe de letra para o Suazo, passa pelo cabrito ao jogador do Setúbal para aconchegar a bola ao fundo da baliza, pelo sorriso de superioridade face às agressões de Bruno Alves, pelo galgar de terreno para arrumar o Sporting, pelos beijos na camisola, pelo deslizar rítmico frente ao Paços de Ferreira que terminou num arco perfeito de golo. Pablito a percorrer o mundo com toda a massa associativa benfiquista atrás dele, encarnando a perfeição futebolística a cada toque, cada finta, cada recepção, cada slalom. É isso que me fica do melhor jogador que alguma vez tive o prazer de ver jogar com a camisola do Benfica vestida.
Vai ser estranho ver os jogos do Glorioso e não sentir aquele nervoso que antecipava a sua presença no onze inicial; o suster de respiração de cada vez que a bola lhe chegava ao pés; a matemática das possibilidades e impossibilidades do que faria com ela; e a satisfação que tantas vezes ficava de ter presenciado mais um pequeno momento de tudo aquilo que me faz gostar de futebol.
O sonho acabou. Obrigado Pablito, por cinco anos maravilhosos.
Em 2010, o Benfica foi campeão. No final da época, o FC Porto aproximou-se de Jorge Jesus. Este reforço do seu poder negocial levou o treinador do Benfica a renegociar o seu contrato, passando a ganhar 2,4 milhões de euros de salário base - o seu salário original era de 1 milhão de euros fixos, mais prémios por objectivos.
Três anos depois, Jorge Jesus renovou o seu contrato até 2015. Seria de esperar, face aos resultados e face à situação financeira do Clube, que o seu salário base fosse revisto por baixo, aumentando pelo contrário o valor dos prémios por objectivos. No entanto, Jesus mantém o vencimento. Não é difícil perceber o porquê: novo assédio do FC Porto - a indefinição em torno do treinador nortenho esteve durante este tempo claramente dependente da situação de Jesus no Benfica.
Concordo com a renovação, pois não me parece que o Benfica arranje melhor treinador que Jesus. No entanto, ocorre-me uma pergunta: incluíram uma cláusula de não concorrência no contrato de trabalho de Jorge Jesus, ou esqueceram-se outra vez? É que um contrato que impeça Jorge Jesus de sair directamente para o FC Porto após terminar a sua ligação ao Benfica evitará uma novela parecida durante estes dois anos.
A afirmação de Matic (O Nemanja) como jogador nuclear do futebol do Benfica, parece trazer atrás de si todo um contingente de imigrantes vindos dos Balcãs em detrimento do habitual lobby sul-americano que compõe o nosso plantel. Vieira terá pensado que, não conseguindo o Benfica constituir a espinha dorsal da Selecção Nacional (essa mesma de que falava JVA quando contávamos nas nossas fileiras com Paulo Madeira, Calado, Luís Carlos, Hugo Leal, Carlitos ou a versão pobre do Maniche), por esta estar já a cargo de Jorge Mendes, deveria ainda assim procurar ser o principal fornecedor de jogadores de outra Selecção, neste caso a Sérvia.
Além de Uros Matic, esse George Jardel dos tempos modernos, deverão chegar também Djuricic, Suleijmani, Markovic e Mitrovic. Ou seja, um defesa central, um médio centro/ofensivo e 3 jogadores para o último terço do terreno, o que - mesmo considerando que alguns deles virão suprir eventuais vendas - me parece não ir de todo de encontro às necessidades actuais do plantel, não pondo com isto em causa a qualidade dos reforços.
Além dos referidos jogadores, fala-se agora da possibilidade de contratarmos também um treinador... Sérvio, Miroslav Djukic. Ora, a ser verdade, o que está em cima da mesa é substituir um treinador competente mas "azarado" na hora das decisões, por um treinador sem experiência em clubes da dimensão do Benfica e que como jogador foi um dos mais conhecidos "pès frios", celebrizado pelo penalty que falhou e que significou a perda do Título Espanhol 93/94 por parte do Deportivo.
"Peseirices" à parte, parece-me que só falta contratarmos também um motivador da mesma nacionalidade para substituir o Brasileiro que lá temos. Como sugestão, atiro para cima da mesa o nome de Radovan Karadzic, (psiquiatra de formação) criminoso de guerra acusado da prática de genocídio aquando do conflito na Bósnia, no início da década de 90. Sob o comando de Karadzic, para estes "meninos", que nasceram e cresceram numa Jugoslávia em clima de guerra civil e desintegração violenta, qualquer ida ao Dragão será um passeio no parque, quando comparado com um dia normal numa qualquer Belgrado ou Sarajevo do final do século passado.
Mais a sério, o que me preocupa mais neste momento não é de onde são oriundos os eventuais reforços, mas sim o peso excessivo de alguns empresários (vários destes jogadores são representados pela Mondial Sport Management, a mesma que representa Salvio, Witsel ou Ramires), muitas vezes pondo em causa o planeamento mais ponderado e a contratação de jogadores em função das necessidades reais do plantel.
Vergonhosa a atitude da equipa, que entrou em campo como se o
jogo já estivesse ganho, que se pôs em vantagem com um golpe de sorte e que
sofreu dois golos em dois minutos. Vergonhoso o treinador, que defendeu um
resultado contra o Vitória de Guimarães, um equipa abnegada mas pouco mais que isso, com
um orçamento anual que deve ser metade do que ganha Jorge Jesus. Vergonhoso
Cardozo, que empurrou o treinador no final do jogo – compreendo a raiva, mas é
uma atitude inaceitável. Vergonhosos os jogadores, que nem sequer se dignaram a assistir
à entrega da Taça ao vencedor. E, pior que tudo, vergonhosa a forma como
fugiram para o balneário, após aquela vergonhosa exibição de displicência, sem sequer
agradecer aos adeptos que os seguiram para todo o lado e que estupidamente
acreditaram que os garotos que ontem vestiram a camisola do Glorioso fariam tudo para
não os desiludir.
O dia de ontem ultrapassou todas as marcas daquilo que é exigível a um adepto
suportar. Aceitaria mais uma derrota; mas uma derrota com estes contornos não
aceito, não compreendo, não me conformo. E quem aceita, quem compreende e quem
se conforma não sabe o que é o Benfica. Ou então sou eu que tenho uma
ideia completamente ultrapassada do Clube, o que também é possível.
PS: Pablito fez o seu último jogo pelo Glorioso, e em tempo oportuno prestarei a devida homenagem.